A Porta para o Caminho

“Ao usarmos os Ritos, a Harmonia é o que há de mais precioso.
Na Harmonia estava a beleza do caminho dos reis ancestrais.”
Confúcio, Analectos.
por Paula Faro

Em 2012, o Mestre Yang Jun, 5o. detentor da Linhagem de Tai Chi Chuan da Família Yang, realizou sua primeira cerimônia de discípulos em Taiyuan, na Província de Shanxi, China. A cerimônia foi realizada em um suntuoso hotel, em um salão grande, de proporções típicas chinesas. Ao fundo da sala, um grande painel com a imagem dos antepassados da Família Yang: Mestre Yang Luchan ao centro, Mestre Yang Jianhou à direita e Mestre Yang Chengfu à esquerda. Abaixo destas imagens, uma pequena mesa com flores, velas vermelhas (uma de cada lado) e um incensário ao centro. Atrás desta mesa, uma maior, com frutas e doces, todos os elementos compondo o altar em oferecimento aos ancestrais. Ao lado direito, sentados, estão Mestre Yang Jun, Mestra Fang Hong (sua esposa), Mestre Yang Zhenduo e a Senhora Rudi (esposa do Mestre Yang Zhenduo). Ao lado esquerdo, estão as testemunhas que devem assinar o termo de compromisso dos discípulos: Mestre Yang Bin, Mestra Chen Juan, Mestre Ma Hailong e Mestre Sun Yongtian.

Quando o Mestre Yang Zhenduo, avô do Mestre Yang Jun, e quarta geração detentora da linhagem da Família Yang, entra na sala é ovacionado pelo público. Ele conduzirá parte da cerimônia. Todas as cerimônias de discípulos da Família Yang seguem este mesmo protocolo resumido aqui. Haverá  algumas alterações devido ao local, datas, tempos, circunstâncias, mas a estrutura básica permanece.   Para começar, Mestre Yang Jun e Mestra Fang Hong pedem autorização para o Mestre Yang Zhenduo para aceitarem novos discípulos na família. Eles oferecem incenso e Mestre Yang Zhenduo se dirige ao altar abaixo da imagens dos ancestrais. Uma parte inicial deste ritual diz respeito aos antepassados da Família. Os mestres e posteriormente os discípulos prestarão respeito e reverências a eles. No início da cerimônia, Mestre Yang Zhenduo pede autorização aos antepassados para que aquelas pessoas sejam aceitas e entrem na Família. Todos os discípulos são apresentados e fazem uma reverência para os presentes na cerimônia. São chamados um a um pelo nome que receberam daquele que agora se tornará seu Shifu (pai-professor), levam o sobrenome da Família – Yang , um nome designando esta geração de discípulos – Ya, e um último nome particularmente escolhido por Shifu e Shimu.  Mestre Yang Zhenduo esteve presente em 2012 e 2015. É tocante estar em sua presença, especialmente nesta cerimônia.

Este foi um momento bastante importante e eu diria até que um marco histórico na continuidade da transmissão da linhagem de uma Família de Tai Chi Chuan. A primeira geração de discípulos do Mestre Yang Jun foi composta na sua maioria por ocidentais, alguns dos pioneiros na difusão dos ensinamentos da Família Yang fora da China. Além destes, estavam também presentes os dois filhos do Mestre Yang Jun: Yang Yaning e Yang Yajie. E entre americanos, italianos e um canadense, dois brasileiros: Roque Severino e Angela Soci precursores na difusão do Tai Chi Chuan da Família Yang no Brasil e diretores do Centro Yang Chengfu São Paulo. Sem dúvida sua contribuição para a difusão desta arte resulta em termos hoje doze brasileiros discípulos da Família Yang no Brasil.

Alguns nomes que a primeira geração traz são bastante significativos: Zhi () é sabedoria, Zhong () lealdade, Jing() calma, Ren ( ) humanidade, Yi () honestidade, De() virtude e Li () polidez.  Quatro das cinco virtudes de Confúcio, ensinamento que dá a base para toda a conduta marcial (o Wude, 武德) e os ensinamentos mais reverenciados pelos Mestres de todas artes marciais.

Antes de vangloriar-se por excelência técnica ou habilidade o discípulo deve se esmerar em polir seu coração e espírito baseando sua conduta nestas virtudes. A quinta virtude não veio com a primeira geração de discípulos mas com a segunda em 2014 – Xin () que significa fidelidade e integridade. Em 2014, desta vez nos Estados Unidos, Mestre Yang Jun recebe sete novos discípulos, entre eles Fernando De Lazzari diretor do Centro Yang Chengfu de Ribeirão Preto.

As cerimônias foram realizadas publicamente e havia muitas pessoas presentes. Elas acontecem em meio a outros eventos organizados pelo Mestre Yang Jun e a Associação Internacional de Tai Chi Chuan da Família Yang.         Seguindo o protocolo, os discípulos se ajoelham e fazem três reverencias. A cerimônia segue os padrões da tradição chinesa. Haverá oferenda de incenso e o koutouuma reverência que expressa gratidão e respeito para com o Professor e a Linhagem. Entrega-se um envelope vermelho contendo uma carta de compromisso. Cada um dos discípulos oferecerá chá ao Mestre e a Mestra que passam a ser chamados de Shifue Shimu () – professor pai e professora mãe. O chá é oferecido em um gesto delicado que é acompanhado da frase em chinês: Shifu e Shimu qing cha (请茶); eles aceitam e tomam um pequeno gole.

Uma linhagem tradicional de Arte Marcial tem como característica a transmissão oral. Não há livros ou documentos escritos sobre o processo que envolve a recepção de discípulos por um mestre. E  geralmente cada família ou linhagem tem suas próprias regras que vem sendo passadas de geração para geração dentro da Família.  Existe também muita especulação ao redor do significado e da relação que se estabelece entre mestre e discípulo. Com certeza o cinema e a literatura exploraram isto ao máximo levando ao espectador ou ao aficionado por artes marciais a criar um  certo romantismo exagerado em torno do assunto.

De fato, este é um momento importante tanto para o Mestre, sua Família e os discípulos já que o compromisso maior que se estabelece é a difusão dos ensinamentos. Talvez seja este o principal direcionamento que se dê ao discipulado. Assumir a responsabilidade de levar adiante a linhagem e os ensinamentos propagando a arte.

Desde 2012 até este ano (2018) houve cinco cerimônias que receberam dentro da Família Yang de Tai Chi Chuan cinco gerações de discípulos (2014, 2015, 2017 e 2018) através do Mestre Yang Jun. Mas não é apenas o detentor da linhagem que pode convidar seus alunos para adentrar o portão da Família. Alunos muito antigos do Mestre Yang Zhenduo, como o Mestre Song Bin abriu as portas para o discipulado em 2014 na cerimônia onde esteve presente um brasileiro, único entre os chineses: José Luiz de Castro Junior (Instrutor de Tai Chi Chuan). Mestre Song Bin é um dos maiores expoentes na difusão do Tai Chi Chuan da Família Yang na China.

Após a entrega do envelope o Mestre dá ao discípulo um certificado e uma caixa contendo dentro uma espada, objeto reverenciado pela cultura chinesa, símbolo de refinamento e da busca pela excelência. Novamente fazem-se reverências, agora todos juntos já como uma Família.

A estrutura da Família obedece também a princípios confucionistas. Cada membro da Família tem um lugar na hierarquia. Primeiro os ancestrais, depois o avô e a avó e então o Shifu e a Shimu. Os tios e tias são tanto o irmão do Mestre Yang Jun assim também como os discípulos do Mestre Yang Zhenduo. Na estrutura familiar tudo está organizado pela posição hierárquica de cada um e não pela idade. Entre os irmãos estão os irmãos e irmãs mais velhos e os irmãos e irmãs mais novas. Deve-se respeitar esta hierarquia e os protocolos que cabem a ela.

No momento final o Mestre faz um discurso e os discípulos com a mão direita sobre o coração leem em voz alta um juramento enfatizando o compromisso de coração que todos fazem com a linhagem, com o Mestre e com o ideal que isto representa.

Na carta compromisso escrita pelos nove discípulos da terceira geração e lida em voz alta na cerimônia realizada na China em 2015 esta escrito: “Cada um de nós presentes aqui hoje é um pequeno anel em uma corrente que conecta o passado ao futuro. Enquanto trabalharmos juntos e não nos separarmos um dos outros, esta corrente dará a volta ao mundo conectando as pessoas em todas as partes. Prometemos trabalhar juntos e dar apoio aos ideais da Família Yang, do nosso Shifu e nossa Shimu. Trabalharemos juntos para preservar os métodos e o alto padrão estabelecido pela Família Yang.”

Compartilhamos algo em comum com os nossos mestres do presente, passado e futuro. A missão e o desejo de levar o conhecimento e o Tai Chi Chuan da Família Yang para a humanidade. Perante as dificuldades, os obstáculos, as agressividades e intempéries da vida e do mundo, este é o momento de um grande abraço, um abraço fraterno, receptivo, sabemos que perante o compromisso que estabelecemos levaremos adiante o coração da linhagem com cuidado e responsabilidade.

Em 2017, pela primeira vez Mestre Yang Jun e Mestra Fang Hong recebem 20 discípulos chineses em cerimônia realizada na cidade de Kunming na China. E, em cerimônia realizada em Datong, recebem mais 45 novos discípulos, entre eles 34 chineses, 2 Iranianos, 1 Italiano, 1 de Madagascar e 7 brasileiros. Entre os brasileiros estão Jefferson Iitako Duarte, Valeria Sanchez, Claudio Montenegro, Andrea Muchão, Adriano Carneiro da Rocha, Tobias Velho, Davi Garritano (Instrutores de Tai Chi Chuan).

Os discípulos da terceira geração reconhecem a importância do Tai Chi Chuan em suas vidas e com gratidão em seu compromisso expressam: “Nos sentimos especialmente gratos que a nossa jornada no Tai Chi Chuan nos conduziu ao Mestre Yang Zhenduo e ao Shifu. Nossas vidas foram profundamente transformadas pela experiência do aprendizado do Tai Chi Chuan diretamente dos detentores da linhagem.”

Acredito que no coração de todos e de cada discípulo o sentimento é o mesmo. Não apenas daquele que se tornou discípulo de um mestre, conectado a uma Família, a uma linhagem. Mas no coração de todo ser humano que encontra a sua essência através de um ofício que lhe permite realizar o seu próprio ser. Este que se torna discípulo do seu caminho, que abre as portas do conhecimento e da realização da vida preenche-se de alegria. A alegria e a satisfação de seguir um caminho que esta em sintonia com o seu ser transborda e beneficia os que estão a sua volta.

Não é uma questão de status, titulo, diploma, reconhecimento, colocação, trata-se sobretudo de um compromisso, de uma responsabilidade. Primeiro compromisso consigo mesmo, compromisso com os princípios, com os valores que aquela linhagem carrega, compromisso com aquilo que o mestre representa, com os ensinamentos que ele transmite através de si mesmo, de sua conduta, na forma como ele se relaciona com o mundo, no mundo, com as pessoas.

Exemplos a serem seguidos nos espelhamos nos Mestres, e no nosso Mestre e Mestra para dar continuidade ao Tai Chi Chuan da Família Yang.  “Vimos como Shifu e Shimu tratam a todos com respeito e generosidade. Embora sejamos, como indivíduos, diferentes, de diferentes culturas e tradições, vocês sempre fizeram o esforço para nos compreender. Sempre nos mostraram carinho e paciência. Shifu e Shimu vimos quão honrados são em suas palavras e ações. Vimos o quão duro trabalham e nunca vimos vocês desistirem. Somos inspirados a seguir o seu exemplo.” (Carta Compromisso, 2015).

Tornar-se discípulo é reconhecer na sua própria humanidade a irmandade, o amor fraterno e a virtude do respeito, da benevolência, e do cuidado ao próximo.

%d blogueiros gostam disto: