Uma geração de Mestres

A dramaturgia dos corpos na mise-en-scène de Wong Kar Wai [1]

Senhor Yip, vou lhe mostrar as 64 palmas para que saiba que o mundo é um lugar vasto.” Gong Er

            Meu mestre não fala muito. Quando estamos juntos, algumas vezes por horas, viajando de um lugar para outro, são raras as palavras que trocamos. Ele nunca pede para você fazer alguma coisa, nunca diz como as coisas deveriam ser feitas, como você deve agir, ser ou o que deve fazer. Quando faço uma pergunta a resposta é simples e direta. Ele é e está. Seu corpo, suas ações e conduta, a forma como se relaciona com o mundo, como ele ensina e sua trajetória estão aí, para serem observadas, aprendidas, sentidas, percebidas. Em seus seminários, quando vem ao Brasil, se nos fixamos muito na explicação da técnica, perdemos o ensinamento. Quando ensina, são poucas as menções à filosofia ou ao pensamento que permeia as artes marciais. Geralmente, fala sobre isso quando alguém pergunta, pedindo uma explicação sobre algum conceito. Não há necessidade de falar, explicar, pois tudo está contido em seus movimentos e nos movimentos do Tai Chi que ensina, em que teoria e prática são um só corpo. 

            Em uma de suas vindas a São Paulo para oferecer um seminário, para o meu espanto, ele nos indicou o filme Uma geração de mestres de Wong Kar Wai e disse que gostaria que assistíssemos. Esse filme é muito pouco conhecido e ele não está disponível no Netflix, Youtube, Amazon Prime, Google Play ou iTunes, pelo menos não no Brasil.  Também não foi muito bem recebido pelo público em geral e até os aficionados por filmes de gōngfu  (功夫)[2] não sabem de sua existência.  Talvez porque mesmo tendo como um dos seus personagens o famoso Yip Man, professor de Bruce Lee, este não é um típico filme de arte marcial. Quando o filme estreou, a franquia O Grande Mestre sobre Yip Man, com o ator Donnie Yen, já havia sido lançada no mercado, e dentro da filmografia de Wong Kar Wai, esse é um filme atípico, diferenciando-se de filmes como Amor à flor da pele, Felizes juntos e 2046.      Existem três montagens do filme, uma para o mercado estadunidense, uma que abriu o Festival Internacional de Cinema de Berlin em 2013, e outra para o mercado chinês. Cada uma delas tem pequenas diferenças que contribuem para a compreensão do filme de uma maneira ou de outra (na versão americana, por exemplo, tem letreiros que situam o espectador no tempo e no espaço). Embora suas marcas autorais estejam presentes, o tema é bastante específico, difícil até mesmo para quem está familiarizado com o mundo das artes marciais chinesas.

            Uma geração de mestres (Yīdài zōngshī, 一代宗师 – 2013), dirigido pelo cineasta estabelecido em Hong Kong, Wong Kar Wai, é o segundo filme em que o diretor trata de um tema bastante comum na cultura chinesa, as artes marciais. O primeiro foi Cinzas do passado, de 1994.  Apesar de que o filme de Wong Kar Wai tenha recebido este título em inglês e português (O grande mestre), quando olhamos para o título original, a tradução não seria exatamente esta.  Yīdài zōngshī pode ser traduzido como Uma geração de mestres. Faremos referência a ele usando esta tradução, já que acreditamos que é disso que o filme trata e também porque permite um distanciamento com relação à franquia com o mesmo título estrelada por Donnie Yen. 

            Este filme levou dez anos para ser realizado e finalizado. Wong Kar Wai fez uma pesquisa extensa viajando por toda a China, entrevistando os mestres das antigas gerações e tradições e se aprofundando neste universo. Todos os atores passaram por treinamentos árduos para incorporar os estilos de artes marciais retratados no filme.  Um dos seus objetivos para realizar o projeto, como diz no documentário que foi gerado a partir de sua pesquisa (The Grandmaster, Wong Kar Wai’s Journey into Martial Arts, Annapurna Pictures, 2013) era mostrar, através do filme, o significado da tradição das artes marciais chinesas e o pensamento e o comportamento que dão embasamento a elas, algo que hoje já não se encontra por lá.

            São quatro os personagens mais importantes do filme: Yip Man, Gong Er, Mestre Gong Yutian e Masan. Estes dois últimos são secundários e menos importantes. É a trajetória de Yip Man e Gong Er que conduzem a história. Gong Yutian é o grande mestre, e representa a geração que está deixando de existir, as linhagens tradicionais, e tudo aquilo que elas significam: status, poder e uma antiga forma de ensinar e praticar arte marcial. Masan é o principal discípulo do Mestre Gong Yutian mas, por sua falha em seguir o código de honra e depois aliar-se aos japoneses, termina sendo morto por Gong Er em uma luta em que ela o enfrenta para recuperar o legado de sua família.

            O início do filme data de 1936, época em que os mestres de artes marciais e suas associações atingiram seu ápice. Yip Man, interpretado por Tony Leung, é o personagem que representa a ruptura do antigo com o novo. Baseado em fatos da vida de Yip Man, o filme nos mostra o processo de transformação deste artista marcial e sua arte. Após a luta em que Yip Man vence o Mestre Gong Yutian, aparece Gong Er, filha deste último. Ela e Yip Man tornam-se os principais personagens do filme que irão compor duas trajetórias diferentes.

            O filme fala de um período histórico marcado pela transição de uma concepção tradicional das artes marciais para aquilo que viria a ser uma concepção moderna. Isso está explícito não apenas na narrativa e na história do filme, mas fundamentalmente na composição da dramaturgia dos corpos dos atores na mise-en-scène. As coreografias das lutas, e os movimentos dos corpos que expressam a arte marcial no filme estão intrinsecamente ligados aos movimentos de câmera, ao cenário, à fotografia, à música e à montagem. O corpo não é o objeto, não está separado do ambiente, e não poderia ser diferente, tratando-se de Wong Kar Wai, que sempre tem os corpos dos atores como elementos narrativos.

Se a dramaturgia é uma espécie de nexo de sentido que ata ou da coerência ao fluxo incessante de informações entre o corpo e o ambiente; o modo como ela se organiza em tempo e espaço é também o modo como as imagens do corpo se constroem no trânsito entre o dentro (imagens que não se vê, imagens pensamentos) e o fora (imagens implementadas em ações) do corpo organizando-se como processos latentes de comunicação. (GREINER, 2005, p.73)

            Este filme será nosso objeto de estudo para este artigo porque nos permite analisar os discursos hegemônicos nas artes marciais chinesas e sua necessidade de transformação através das mudanças históricas e políticas daquele contexto. Para tanto, a compreensão da construção e articulação da narrativa através da linguagem cinematográfica e seus procedimentos de criação é fundamental. A mise-en-scène nos permite compreender estes mecanismos usados pelo diretor. “A mise-en-scène se torna a grande arma do autor e principal ferramenta teórica da crítica” (OLIVEIRA JUNIOR, 2013, p.8). Através da análise da composição da mis-en-scène e do uso de procedimentos de criação identificamos como estes recursos estéticos e narrativos aparecem no filme construindo sua dramaturgia. Tratando-se do universo das artes marciais, a dramaturgia dos corpos ocupa um lugar central na narrativa do filme. Assim como é o corpo do artista marcial, o corpo dos atores em cena é corpomídia, pois é este corpo que comunica através do movimento as transformações que ocorrem. “O corpo encontra a informação e ela se transforma em corpo, modificando-se. E nada é preservado pois tudo é fluxo, tudo é acontecimento” (GREINER E KATZ, 2015, p.9). Este trabalho terá como base teórica-metodológica principalmente o livro O Corpo: pistas para estudos indisciplinares de Christine Greiner.

Uma geração de mestres

“Em séculos de história das artes marciais muitas coisas desapareceram, nenhuma arte é maior que o céu, nenhum som é mais sólido que a terra. Nada dura para sempre e isso é bom.” Gong Er

            Uma geração de mestres tem como fio condutor a vida de Yip Man, famoso mestre de Wing Chun[3], professor de Bruce Lee. A história começa em Foshan,[4] nos anos trinta, relatando a transição política e histórica que houve na sociedade chinesa até a ida de Yip Man para Hong Kong nos anos cinquenta. Através desse personagem e de outros, o filme mostra como o mundo das artes marciais sofreu uma mudança de concepção importante, passando da tradição à modernidade.

             Após vermos o filme, meu mestre comentou que não se tratava de uma película de luta. Ele nos disse que não se tratava de um filme sobre técnicas, escolas ou estilos de arte marcial, e sim sobre o pensamento e o código de honra que permeiam essas práticas. Como diz o personagem Yip Man no filme: “Vivi na época das dinastias, na nova república, nos comandos militares, na invasão japonesa, na guerra civil… O código de honra das artes marciais me ajudou a seguir em frente.  As artes marciais pertencem a todos. A arte marcial tem a ver com gōngfu e não com as escolas”. Os princípios que sustentam esta conduta marcial, conhecida como wǔdé (武德), são as cinco virtudes de Confúcio[5]: zhi (智) é sabedoria, ren (仁) é humanidade, yi (毅) é honestidade,  li (礼) é polidez e xin (信), que significa fidelidade e integridade. Mesmo se tratando do mesmo filme, víamos duas narrativas diferentes. Ele via algo que eu ainda não via, mas queria ver e entender. Quando se trata do código de honra das artes marciais, ao lermos as palavras de Confúcio, não podemos fazer uma analogia ou uma comparação com a compreensão que temos delas a partir da perspectiva ocidental e assim se dá também com o filme. Tratando-se de uma obra de arte e de um processo criativo, “a diferença nem sempre gera confronto, mas instaura uma crise deflagrada pelo estranhamento daquilo que não é o mesmo e, assim, pode fazer emergirem novos caminhos de criação” (GREINER, 2017, P.10).

            Já assisti ao filme inúmeras vezes, incluindo as três diferentes montagens, e a cada vez percebo melhor porque nos foi indicado e a profundidade e complexidade do tema. Quando escutei as palavras “não é um filme sobre lutas”, e  voltei ao filme, um processo de aprendizado se instaurou e pela primeira vez  comecei a acessar a compreensão do pensamento das artes marciais e sua relação intrínseca com a prática. Uma não está separada da outra.

Pode-se considerar, portanto, que a experiência da alteridade que lida com tudo aquilo que não é o mesmo, e sim, um estado outro, acionado por algo, alguém, alguma circunstância ou ideia diferente, constitui-se como um dos principais operadores de movimento.
(GREINER, 2017, p.12)

            Este movimento também me permitiu uma aproximação com meu mestre, sua forma de ensinar e de se relacionar conosco. Algo que não é fácil de fazer tratando-se de um outro conduzido por normas e princípios bem diferentes.  O filme permitiu essa aproximação que requer muito gōngfu (功夫) para a constituição de um outro corpo.

            Na China, a Arte Marcial é uma cultura, um pensamento que é transmitido através de uma prática corporal e do movimento. Os sistemas de arte marcial como o Xing Yi[6], Ba Gua[7], Taiji[8] e Wing Chun (alguns dos estilos retratados no filme) podem ser considerados como corpos de conhecimento estruturados que se atualizam no mundo através dos processos históricos e políticos. “Algumas informações do mundo são selecionadas para se organizar na forma de corpo – processos sempre condicionados pelo entendimento de que o corpo não é um recipiente, mas sim aquilo que se apronta nesse processo co-evolutivo de trocas com o ambiente.” (GREINER, 2013). Diferente das concepções e imagens orientalistas evocadas pelos filmes de arte marcial da grande indústria hollywoodiana e também de Hong Kong, o filme de Wong Kar Wai procura, através dos elementos da linguagem cinematográfica (movimentos de câmera, velocidade, música, montagem, etc.), tendo como primeiro recurso o movimento do corpo dos atores e suas coreografias em cena, aproximar o espectador dessas expressões culturais, como elas se estruturam e como se transformam para permanecerem vivas. 

             A estrutura do filme segue uma narrativa não linear, em que tempos, espaços, os personagens e suas trajetórias não estão bem definidos. Não temos um herói e um anti-herói. Não temos planos e contraplanos. Em diversos momentos do filme, não sabemos em que local ou em que momento da história estamos. A câmera de Wong Kar Wai passeia por entre os ambientes e seus personagens. A montagem, as velocidades de câmera que se alternam entre o lento e o rápido, a música, o figurino, os procedimentos de criação, como a neve caindo, a fumaça, as imagens fora de foco, os fundos desfocados, os movimentos marciais dos corpos dos atores, tudo compõe a mise-en-scène[9] do filme, que geram novas possibilidades narrativas a todo momento. Estes elementos fazem parte tanto da narrativa do filme como também do contexto político e histórico no qual os personagens estão inseridos. Novas possibilidades para seus personagens, seus corpos, suas trajetórias e a própria história das artes marciais que é transformada pelos acontecimentos políticos que tomam a China desde a época do império, passando pela República, a invasão japonesa e a guerra civil que termina com o novo governo chinês estabelecido por Mao Zedong.

            As artes marciais, através da história da China, recebem influências filosóficas de acordo com cada período e diferentes interpretações, ganhando, com isso, múltiplas abordagens que acompanham esse processo histórico e cultural até os dias de hoje. As posturas, movimentos ou formas não estão separadas deste processo. As técnicas são transformadas por estes, assim como o pensamento que expressam.

            Antes de valorizar a excelência técnica ou habilidade, o praticante da arte marcial deve se esmerar em polir seu coração e espírito baseando sua conduta nas virtudes marciais. O wǔdé é o ensinamento que dá a base para toda a conduta marcial e os ensinamentos mais reverenciados pelos Mestres de todas artes marciais. Para o mestre que ensina seu discípulo, a constatação do aprendizado se dá através da observação do seu comportamento, como coloca Gong Er, personagem do filme interpretada por Zhang Ziyi, “mais que habilidade, aprendi com meu pai um código de honra”.  

            Durante todo o filme, através dos personagens, seus diálogos e seus movimentos, a narrativa vai evidenciando estas relações entre a teoria e a prática, o corpo e a mente, o masculino e o feminino, o norte e o sul, a tradição e a modernidade.  O filme não se contenta em apenas mostrar essas dualidades, mas as coloca em tensão, relacionando-as e buscando, através da passagem do tempo e destes processos instaurados pela narrativa, a necessidade de ruptura, mudança e transformação.  É aí que a linguagem cinematográfica e as escolhas dos procedimentos narrativos do diretor constroem a mis-en-scène. Como dito anteriormente, as escolhas dos procedimentos de criação usados pelo diretor do filme permitem que adentremos este mundo através da experiência dos personagens que estão completamente imersos na mis-en-scène. Não há separação entre corpo e ambiente, natureza e cultura. “O ambiente não é uma estrutura imposta do exterior aos seres vivos mas, de fato, uma criação co-evolutiva com eles” (GREINER, 2005, p.44). A câmera passeia pelo corpo dos atores como se estivesse atravessando os personagens. Os elementos da natureza, como a gota de água na luta que abre o filme, estão sempre presentes. A fumaça que, desde a sequência dos créditos iniciais marca a passagem do tempo, etéreo e efêmero, está sempre em movimento, anunciando as transformações. A neve, o fogo, o guisado de cobra, que quando está sendo preparado solta fumaça e borbulha, enquanto os personagens em cena discorrem sobre a separação entre o norte e o sul da China, e dizem: “este fogo hoje precisa de madeira nova”.  O contato corpo a corpo dos personagens nas lutas, evidenciado principalmente no encontro entre Yip Man e Gong Er. A invasão japonesa, as bombas, a perda da família de Yip Man e do pai de Gong Er, que é assassinado por seu principal discípulo Masan.

            São estes alguns dos recursos usados que compõem esta narrativa, sempre nos aproximando de uma experiência sensorial que provoca uma ruptura e descontinuidade não apenas da história narrada mas principalmente na trajetória dos personagens. São estas rupturas e descontinuidades, que irão conduzir a história para a construção de novas possibilidades narrativas que modificam a trajetória dos personagens, seus corpos e assim o devir das artes marciais.

            A Teoria Corpomídia nos aproxima da compreensão destes mecanismos através da ideia das metáforas do pensamento que seriam “um modo de estruturar parcialmente uma experiência em termos de outra” (GREINER, 2005, p.46). Os elementos que compõem a narrativa do filme e os procedimentos de criação mencionados anteriormente são imagens metafóricas que nos aproximam da compreensão daquele universo. Como na luta entre Gong Yutian e Yip Man onde os dois seguram um bolo. A imagem do bolo se transforma na China, na disputa entre o norte e o sul, e  evidencia o antagonismo entre duas visões de mundo. Yip Man diz para seu oponente após ter vencido a luta: “O mundo é um lugar vasto; porque limitá-lo a norte e sul? Isso é conservador demais. Para você esse bolo é o país. Para mim, é muito mais. Afaste-se do que conhece e conhecerá mais. A arte do sul vai mais longe. O norte não é o limite.” Os personagens se constituem a partir do ambiente, da cultura e do corpo. No mundo das artes marciais você é a sua arte, só existe a partir dela, por isso, na tradição, a transmissão através de uma linhagem consanguínea é tão importante.

As experiências são fruto de nossos corpos (aparato motor e perceptual, capacidades mentais, maquiagem emocional etc), de nossas relações com o nosso ambiente físico (mover, manipular objetos, comer etc), e de nossas interações com outras pessoas dentro da nossa cultura (em termos sociais, políticos, econômicos e religiosos). (GREINER, 2005, p. 46)

Gong Er e Yip Man

eu cresci vendo meu pai lutar, o som mais familiar para mim era o de ossos se quebrando, pena eu não ser um garoto…” Gong Er

            Gong Er nunca perdeu uma luta, mas não consegue vencer as barreiras da tradição. Quando a mulher nasce na China, sua família já sabe que ela não lhe pertence, pois se casará e passará a fazer parte da família do marido. Naquela época, em uma família tradicional de artistas marciais, a menina não era ensinada, e nunca poderia dar continuidade à linhagem. Gong Er era filha única, e seu pai ensinou-a escondido. Das duas artes marciais que sabia, Xing Yi e Ba Gua, a única pessoa para quem ele transmitiu o conhecimento do Ba Gua foi Gong Er. Para os seus discípulos ele só ensinava Xing Yi.   

             Gong Er, a partir do momento em que seu pai perde a luta para Yip Man não aceita que uma mudança no curso das artes marciais na China esteja acontecendo. Primeiro, não aceita que seu pai foi vencido por um artista marcial do sul da China, a partir daí, o polo de artes marciais na China não mais será o norte, passará a ser o sul.  Assim, decide desafiar à Yip Man, mesmo sabendo que não poderá assumir a liderança da sua linhagem; quer deixar a sua marca. Yip Man segue o processo que esta em curso na China daquele momento e vai para Hong Kong, permanecendo lá depois da guerra com o Japão. Na história, a guerra com o Japão é o marco político e social que faz que Yip Man tenha que ir para Hong Kong. A situação política e o momento histórico vivido por Yip Man chega a seu ápice com a invasão japonesa. Ao fim do filme ele termina trocando sua roupa tradicional chinesa por um terno e gravata. Ela, pela impossibilidade de gerar novos corpos (decide não casar e não pode ensinar), ficará neste tempo. Gong Er morre viciada em ópio, mantem-se presa à identidade que lhe é incumbida dentro da sociedade patriarcal.

            Yip Man vai para Hong Kong e começa a ensinar o Wing Chun fazendo a transição para o mundo moderno em que as artes marciais passam a ser ensinadas abertamente em escolas, fora das famílias. Este movimento é o que permite, como vemos no final do filme, com a chegada do pequeno Bruce Lee, que a transmissão aconteça e tenha continuidade. De certa forma, Bruce Lee é quem permitirá que o legado de Yip Man se torne conhecido no ocidente e perdure no tempo. Mas não apenas isso: é através da figura de Bruce Lee e sua presença nas telas de cinema que terá início o processo de conhecimento e popularização das artes marciais chinesas no ocidente.  

            Yip Man e Gong Er expõem o antagonismo entre a tradição e a modernidade, o lugar que o homem e a mulher ocupam e duas abordagens de como a arte marcial deve seguir. Gong Er tem que esquecer o que aprendeu, pois não poderá ensinar, quer seguir em frente, mas está inserida na tradição. Mesmo sendo ela a arte marcial que pratica, seu legado de sangue, ela tem que se esquecer, e se desfazer desta possibilidade de existência. Ela fica presa a um sistema enraizado na tradição e só pode morrer. Como a personagem diz no filme em um diálogo com Yip Man:  “Meu pai disse que a maestria têm três estágios: ser, conhecer, fazer. Eu me conheço, tenho visto o mundo, infelizmente não posso transmitir o que sei. Por essa estrada não vou viajar. Espero que você faça a jornada.”    

            Na cena em que Yip Man e Gong Er lutam, uma ópera abre a sequência. A música é Stabat Mater Dolorosa, composta para o filme pelo compositor italiano Stefano Lentine. É uma ópera baseada em uma sequência católica do século XIII. Sua letra fala do sofrimento de Maria no momento da crucificação de Cristo.

            Até esta cena, o filme vinha sendo conduzido pela ascensão de Yip Man e seu reconhecimento no mundo das artes marciais. É o início da transição de um sistema, o antigo – calcado pela época da República Popular da China, considerada a era de ouro das artes marciais, ainda muito marcada pela tradição da época imperial -, e o novo que tem início com a ascensão de Yip Man e se desenvolverá depois de outras formas.

            Nesta cena, o filme não nos localiza em tempo e espaço narrativos. E seus personagens mal se destacam do ambiente em que estão inseridos. Assim como o corpo do artista marcial é formado pela arte que pratica, este corpo está aderido ao ambiente, não há separação. Gong Er aparece no centro do quadro, olhando para o nada, atrás o quadro esta preenchido por outras mulheres. Sabemos que estamos no Pavilhão de Ouro, um prostíbulo, local onde seu pai e outros artistas marciais costumavam frequentar. Gong Er olha fixamente para o centro esquerdo do quadro, à medida em que a câmera se afasta, vemos mais uma vez um fundo escuro e fora de foco e todos os outros corpos que estão atrás dela olhando para o canto direito, em direção oposta. Isto gera um estranhamento, assim como todos os elementos narrativos em cena. Nos faz lembrar a imagem da Santa Ceia; parece que estão todos congelados aí. A câmera passeia por outros rostos, que já haviam sido vistos antes, e volta para Gong Er sentada a mesa; a câmera agora esta mais próxima; quando a câmera se afasta vemos a Yip Man. Eles se olham fixamente e, atrás do quadro, vemos todas as outras mulheres que dirigem sua mirada para ela. Diferente do uso do plano e contraplano, Wong Kar Wai faz movimentos de câmera que flutuam sobre os personagens. Eles conversam. Ela fala em mandarim, ele em cantônes. Ela diz: “há três anos meu pai sentou aqui. Esta noite é entre nós dois.”  Esta será a primeira vez que veremos a Gong Er lutar. A coreografia da luta e sua relação com a câmera é diferente da luta de Yip Man com o pai de Gong Er, em que a coreografia da luta foi feita em planos mais abertos, com poucos detalhes e com pouco contato entre os dois oponentes. Também é bastante diferente da luta que é mostrada mais a frente no filme entre Gong Er e Masan, quando ela vence e reclama o legado de sua família. Lá ela e Masan se confrontam, não há diálogo. Aqui, com Yip Man, cada gesto e cada toque compõem um diálogo profundo de reconhecimento dos corpos, pensamentos e trocas de conhecimento. Na arte marcial, o pensamento se expressa por meio do movimento corporal. A luta não é apenas uma forma de diálogo, mas quando dois grandes artistas marciais lutam, o encontro, o corpo a corpo é um diálogo profundo sobre como se pensa a própria arte marcial, e um aprende com o outro. Nessa troca e aprendizado há expansão de conhecimento, a expressão de um pensamento no movimento. É a cena de luta mais longa do filme. Assim como o movimento dos corpos de Yip Man e Gong Er se aproximam um do outro, a câmera dança em volta deles, compondo a coreografia.  Cada gesto, cada olhar é um reconhecimento do outro. Dois estilos de arte marcial; Wing Chun e Ba Gua, qual dos dois perdurará no tempo?

Para pensar na dramaturgia de um corpo, há de se perceber um corpo a partir de suas mudanças de estado, nas contaminações incessantes entre o dentro e o fora (o corpo e o mundo), o real e o imaginado, o que se dá naquele momento e em estados anteriores (sempre imediatamente transformados), assim como durante as predições, o fluxo inestancável de imagens, oscilações e recategorizações. (GREINER, 2005, p. 81)

            Neste filme, a dramaturgia do corpo dos atores em mise-en-scène é fundamental para compor a narrativa que trata do movimento de transição de um período histórico, da transformação dos corpos em movimento que modificam uma cultura e uma expressão como as artes marciais chinesas. Fazendo isto, o filme se torna um meio para a compreensão do pensamento tradicional, sua relação com a arte marcial e seu processo de transformação, permitindo uma aproximação de saberes que vai além das dicotomias ocidente/oriente, corpo/mente, teoria/prática e natureza/cultura. Torna-se um registro que preserva e resgata a memória de um tempo perdido. Mas, também, nos possibilita a reflexão sobre o papel da tradição e a necessidade de sua transformação no tempo e no espaço. “A permanência está na aptidão do vivo para se organizar sempre em relação a algo ou alguém, na tentativa de manter vínculos de naturezas diversas (sonhos, afetos, ideais e assim por diante) e sobreviver” (GREINER, 2005, p. 82). 

Referências bibliográficas:

CONFÚCIO. Os Analectos. Tradução, comentários e notas Giorgio Sinedino, São Paulo, Editora UNESP, 2012.

GREINER, Christine. O Corpo: pistas para estudos indisciplinares. São Paulo: Annablume, 2005

GREINER, C.; KATZ, H. (Orgs.). Arte e Cognição. São Paulo: Annablume, 2015.

GREINER, Christine. Em busca de uma metodologia para analisar a alteridade na arte. Concept., Campinas, SP, v.6, n.2, p. 10- 21, jul/dez. 2017.

OLIVEIRA JUNIOR, Luis Carlos. A mise en scène no cinema: do clássico ao cinema de fluxo. Campinas, SP: Papirus, 2013.


[1] Proposta de trabalho aceita para a participação no XXIII Encontro SOCINE, 2019.

[2] O conceito de gōngfu é conhecido no ocidente por se referir às artes marciais, mas seu significado não é esse. O termo gōngfu é composto por duas partes. gōng, a primeira parte, significa trabalho, obra e labor. fu, a segunda parte, quer dizer habilidade, arte e esforço na direção da excelência. Assim gōngfu é um termo que significa um trabalho que requer tempo, dedicação e esforço. Um caminho que procura o aperfeiçoamento e o alcance da excelência em uma técnica ou arte. A maestria, para Gong Yutian, personagen do filme, é alcançada através de três estágios: ser, conhecer e fazer. O gōngfu constrói esta ponte através do treinamento, do convívio com o mestre e irmãos de treino, e da aplicação dos ensinamentos na vida (este último item é fundamental, já que se não há aplicação ou o fazer, os outros dois não fazem sentido, e não existe a possibilidade de movimento e continuidade).

[3] O Wing Chun é um dos sistemas de arte marcial chinês. Originou-se no sul da China e suas características são economia de movimentos simples e eficientes.

[4] Foshan é uma cidade no Cantão, ao sul da China.

[5] CONFÚCIO. Os Analectos. Tradução, comentários e notas Giorgio Sinedino, São Paulo, Editora Unesp, 2012.

[6] O Xing Yi é um dos três estilos de arte marcial interna da China com origem na Montanha Wudang. Sue nome pode ser traduzido como a luta da forma e intenção.

[7] O Ba Gua é outro estilo de arte marcial interna, conhecido como a luta dos oito trigramas ou as 64 palmas.

[8] O Taiji também tem sua origem primordial na Montanha Wudang, local de origem das artes marciais internas chinesas. É conhecido por seus movimentos lentos e circulares.

[9] “A mise-en-scène defendida pelos críticos da Cahiers du Cinema é um pensamento em ação, a encenação de uma idéia, a organização e disposição de um mundo para o espectador. (OLIVEIRA JUNIOR, 2013)

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